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Tal como Oporto está a começar a cair em desuso no inglês, também nós temos exónimos que já não usamos. Por exemplo Francoforte, Tolosa, Aquisgrano, Angorá. Se o primeiro ainda é reconhecido como o nome português de Frankfurt, já poucos saberão que Tolosa é Toulouse, em França, Aquisgrano é Aachen, na Alemanha e, por fim, Angorá é Ancara, capital da Turquia.

A visão que uma língua — neste caso o português — tem sobre o mundo vai mudando. Por vezes, as cidades estrangeiras merecem um nome português; mais tarde, por motivos nem sempre claros, o nome original serve perfeitamente. Ninguém disse que isto era simples…

P.S. Há exónimos que estão em risco, mas ainda sobrevivem, como o portuguesíssimo Baçorá, que começa a aparecer como Basra, no Iraque, talvez por influência do inglês.

Porque se diz “Oporto” em inglês? Pela mesma razão que dizemos “Algarve” e não “Garve”, Alcácer e não “Cácer”, e por aí fora.

Por vezes, ao criar exónimos (nomes de terras em línguas estrangeiras), as línguas assumem o artigo da língua original como parte do nome dessa terra. Foi o que aconteceu com o espanhol e o inglês, no caso do Porto.

Como, normalmente, os exónimos só existem em caso de cidades com alguma importância, na perspectiva da língua em que ocorrem, só temos de nos orgulhar com “Oporto” — e não reclamar, como por vezes acontece, como se os espanhóis e os ingleses estivessem a cometer algum erro ao dizer “Oporto”.

Também nós dizemos “Nova Iorque”, “Pequim”, “Londres”, e por aí fora. Não são erros: são formas portuguesas, com origens distintas, de dar nome a cidades estrangeiras — tal como Oporto é a forma espanhola e inglesa de dar nome ao Porto.

P.S. “Oporto” e “Porto” são as duas formas do nome da cidade do Porto em inglês. Ambas estão correctas.

O nome de Portugal pode ter um aspecto muito estrangeiro. Talvez o grego Πορτογαλία e o russo Португалия não sejam assim tão estranhos, principalmente se soubermos que, nos alfabetos grego e cirílico, “Π” é “P” e “P” é “R”. Já se dermos um salto ao Cáucaso, temos o surpreendente e redondíssimo georgiano, em que o nome do nosso país é  პორტუგალია. Um pouco abaixo, o arménio parece utilizar apenas “u”, “n” e “m” em várias direcções e feitios: Պորտուգալիա . O árabe البرتغال é um deslizar de arabescos (neste ponto, um adolescente diria “dââh!”). No oriente, o tailandês ประเทศโปรตุเกส lembra um código inventado por piratas. O chinês, como sabemos, é outro mundo, opaco e misterioso, que não deixa de nos acicatar a curiosidade. Reparem: todos nós vivemos em 葡萄牙 — e não sabíamos.

Façamos uma viagem de Lisboa até Moscovo, usando não um avião, mas a palavra “palavra”, por um dos muitos percursos possíveis.

Começamos no português palavra, para termos, logo a seguir, o castelhano, com a pequena troca dum “v” por um “b”: palabra. Passamos ao catalão paraula, já a soar a além-Pirenéus, depois fazemos um desvio exótico pelo basco hitza, que interrompe as suaves transições latinas e não lembra a ninguém. Ainda nem saímos da península. Depois dum peculiar mot francês (sabendo nós que há uma “parole” com outros significados – os terríveis falsos amigos), continuamos pelo italiano  parola, que lembra o catalão (ou será o contrário?). Saltamos para o lado dos eslavos, começando pela beseda eslovena e a riječ croata. Interrompemos a viagem eslava na ilha magiar, com szó, depois voltamos às línguas latinas, com o romeno cuvânt. Deixamos o nosso alfabeto para chegarmos ao ucraniano слово [slovo], seguindo pelo слова [slova] bielorrusso. A seguir, voltamos às letras latinas, com o lituano žodis, o letão vārds e o estónio sõna. Saltamos o báltico para chegar ao finlandês sana e damos uma volta final para chegar a Moscovo, com o russo слово [slovo].

Há pequenas curiosidades: o estónio e o finlandês aproximam-se (compreensivelmente), o primeiro deles usando o nosso conhecido til. As línguas bálticas não parecem vizinhas – e, por fim, para quem ache o ucraniano, bielorrusso e russo demasiado parecidos, não nos esqueçamos que, para eles, as formas portuguesa e espanhola são quase iguais.

Só para acabar, outras paragens, que ficam como desafio: kelime, từ e o lindíssimo orð. Tudo outras formas de dizer “palavra”.

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